sábado, 10 de maio de 2008

Quinto fichamento

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Holocausto.Rio de Janeiro, Jorge Zahar,1998.Capítulo “Singularidade e normalidade do Holocausto”

  • A tese principal é mostrar que o Holocausto não foi simplesmente um fato sem explicação perpetrado por loucos.A singularidade do Holocausto não vem de ter exterminado um número elevado de indivíduos, mas sim do modo como isso ocorreu,dentro de um planejamento altamente racional e organizado.

  • Há duas razões pelas quais o Holocausto não deve ser visto como um assunto de interesse exclusivamente acadêmico ou reduzido à matéria de pesquisa histórica e contemplação filosófica: o fato de o Holocausto não ter mudado significativamente o curso da história, deixando as ciências intactas; e porque aqueles produtos da história que continham a probabilidade do Holocausto não foram mudados.Se havia algo na ordem social de 1941 que tornou possível o Holocausto, não podemos ter certeza que isto foi eliminado da sociedade atual.

  • Muitas características da sociedade contemporânea encorajam este tipo de genocídio.Dentro de certos limites políticos e militares, o Estado moderno pode fazer o que bem entender àqueles sob seu controle.

“O estado territorial soberano reivindica, como parte integral de sua soberania, o direito de cometer genocídio ou promover massacres genocidas de povos sob o seu governo e. a ONU, para todos os efeitos práticos, defende esse direito” (Leo Kuper)

· No entanto, deve-se evitar a noção de que, cada vez mais, as condições de um indivíduo na sociedade atual se assemelham às condições de vida de um prisioneiro em Auschwitz. Bauman considera este tipo de afirmação um produto de exagero e alarmismo indevido.Questiona, inclusive, sua contraproducência: “se tudo que conhecemos é como Auschwitz, então pode-se viver com Auschwitz e em muitos casos viver até razoavelmente bem.”

· A sociedade moderna não é responsável pelo Holocausto, uma vez que o ódio comunitário mortífero sempre esteve entre nós.No entanto foi um os fatores que o desencadearam.

“Pelo fato de o Holocausto ser moderno, não segue que a modernidade é um Holocausto. O Holocausto é um subproduto do impulso moderno em direção a um mundo totalmente planejado e controlado, uma vez que esse impulso deixe de ser controlado e corra a solta. A maior parte do tempo, a modernidade é impedida de chegar a este ponto. Suas ambições chocam-se com o pluralismo do mundo humano; elas não se realizam por falta de um poder absoluto suficientemente absoluto e de um agente monopolista para conseguir despreza, deixar de lado ou esmagar toda a força autônoma e portanto,compensatória e suavizante.” (p. 117)

· Existem duas circunstâncias, separadamente inofensivas, que nas raras vezes em que se encontram, levam a um caso de genocídio moderno: uma elite de poder ideologicamente obcecada; e facilidades de ação racional e sistêmica desenvolvidas pela sociedade moderna.De acordo com Bauman:

“O Holocausto moderno é único num duplo sentido. É único entre outros casos de genocídio porque é moderno. E é único face a rotina da sociedade moderna porque traz à luz certos fatores ordinários da modernidade que normalmente são mantidos à parte.” (p. 118)

· O genocídio moderno, do qual o Holocausto é o maior expoente, não é simplesmente baseado em raiva ou fúria, devido à ineficiência destes sentimentos como instrumentos de extermínio em massa, pois normalmente exaurem-se antes de concluída a tarefa. Os genocídios modernos são empreendimentos em grande escala, superiores em todos os aspectos, caracterizando-se por uma ausência quase absoluta de espontaneidade e pelo predomínio de um projeto cuidadosamente calculado e racional.

· Os genocídios modernos não se baseiam puramente no extermínio por puro ódio racial ou motivos semelhantes.Livrar-se do adversário não é um fim em si. É um meio de atingir uma sociedade melhor e radicalmente diferente. Bauman utiliza a metáfora do jardineiro para explicar este fato. O jardineiro não destrói as ervas daninhas que crescem em seu jardim simplesmente por serem ervas daninhas, mas para manter a ordem e a beleza do jardim.Do mesmo modo, a cultura moderna define-se como um projeto de vida ideal e um arranjo perfeito das condições humanas. Para tanto, os indivíduos considerados “daninhos” devem ser identificados e neutralizados.

· Este modo de ação burocrático utilizado nos casos de genocídio moderno contém todos os elementos técnicos que se revelaram necessários à execução de tarefas genocidas.São alguns deles:

· A divisão hierárquica e funcional do trabalho: este tipo de divisão auxilia o uso da violência, pois cria uma dissociação entre os meios, submetidos à critérios instrumentais e racionais,e a avaliação moral do fim.Esta dissociação, em geral, é resultado de dois processos: a meticulosa divisão funcional do trabalho e a substituição da responsabilidade moral pela ética.

· A divisão funcional do trabalho cria uma distância entre a maioria dos contribuintes para o resultado final da atividade coletiva e o resultado em si.O que esta distância significa no caso estudado, é que a maioria dos funcionários da hierarquia burocrática pode dar ordens sem pleno conhecimento dos seus efeitos.Para estes, os resultados são no máximo representados sob a forma de gráficos ou diagramas.

· O segundo processo, a substituição da responsabilidade moral pela técnica, está intimamente ligado ao primeiro.Em uma graduação puramente linear do poder, poderia haver um conflito de consciências entre a ordem dada e a responsabilidade moral da pessoa incumbida de executá-la.Na divisão funcional, esta possibilidade é eliminada, pois o trabalho é dividido entre os vários indivíduos, não cabendo a nenhum deles a compreensão de seu todo.Resta apenas a responsabilidade técnica, na qual o ato de que a ação é um meio para conseguir algo além dela mesma é esquecido.O indivíduo preocupa-se somente em fazer seu trabalho do melhor jeito possível.

· A desumanização dos objetos da operação burocrática: em resumo, esta tendência consiste na redução, devido ao distanciamento, dos objetos visados pela operação burocrática a um conjunto de medidas puramente quantitativas.Como mencionado anteriormente,para os funcionários de alto escalão,os resultados das suas ações apenas chegam sob a forma de números e estatísticas.Reduzidos a esta condição,os objetos humanos perdem sua identidade..Uma vez cancelados como indivíduos potenciais de demandas morais, os objetos humanos são vistos com indiferença ética.Objetos humanos tornam-se então um mero “fator incômodo”.

· Mas que papel este tipo de burocracia exerceu no caso isolado do Holocausto?O espaço entre a idéia do extermínio judeu e sua execução foi completamente preenchido pela ação burocrática.Embora não tenha dado início ao medo da contaminação racial, a ação burocrática certamente forneceu as bases para que este tenha se desdobrado no Holocausto.A burocracia, por sua rotina e ímpeto, também contribuiu coma duração do Holocausto quando a derrota alemã já era iminente.Por fim, gerou a ambição de levar um aparato de limpeza racial tão eficiente a outros territórios, deixando como único destino possível aos judeus a execução em massa.

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